A casa como cenário principal da vida cotidiana



Por Hugo Gripa

 

A casa residencial é um invólucro, um ninho, um espaço sagrado que testemunha e serve de cenário para as relações sociais humanas e não-humanas durante toda nossa existência. A casa é um cenário público e privado de sociabilidades e, com advento da pandemia do novo coronavírus e suas restrições e imposições de isolamento social, este cenário tomou um novo patamar de protagonismo. Estamos vivendo e convivendo muito mais em casa do que antes e será assim até existir novas condições de saúde e segurança para todos ao mesmo tempo. Atualmente, vivemos um novo período com nossa casa e nossa dinâmica familiar, resgatando atributos que estavam adormecidos por conta de outros cenários de uso externos. Para entender algumas qualidades inerentes a casa, trago algumas reflexões antropológicas que servem para embasar o que vivenciamos diariamente, seja conosco ou com os clientes com quem trabalhamos.

Para Marion Segaud (2016), habitar é estabelecer uma conexão com o território, atribuindo-lhe qualidades que identificam seus moradores. A casa é uma imagem de seu morador e da família, de um ser social, e suas delimitações, afazeres domésticos de seus habitantes, suas orientações de espaço e dentro do espaço compreendem como o ser humano se posiciona em relação ao seu entorno e entre as pessoas que convive. Cada cultura, grupo, família, constrói seu patrimônio, com o propósito de articular e expressar sua identidade e sua memória (Segaud, 2016).

Estabelecer uma relação entre o espaço e o eu, trata de atribuir significado a este lugar. Este processo varia conforme as culturas, as gerações e os sujeitos, e que podem ser geralmente assimiladas a rituais. Mudar para uma casa nova, ou reocupar uma casa existente, envolve muitas outras práticas, além de sua aquisição; pintar, limpar, decorar, mobiliar são ações materiais que transformam o espaço do outro, do antigo morador, ou do “antigo eu” em um novo espaço. Essas ações são práticas de fundação que são festejadas junto com o ato principal da casa nova e o legitima como um fato social, cultural, além de dar identidade e transformar o lugar em um espaço (Segaud, 2016).

Assim, a casa assume uma perspectiva de entidade dinâmica, que compartilha com seus moradores a mesma trajetória de vida, isto é, esta abordagem sugere que a transitoriedade das casas deve ser investigada sob a mesma perspectiva que a de seus habitantes. “A casa é uma extensão da pessoa; como uma pele extra, uma carapaça ou uma segunda camada de roupas, serve tanto para revelar e expor quanto para esconder e proteger” (Carsten; Hugh Jones, 1995, p. 02). Considerar casas e pessoas sob uma mesma estrutura de análise pressupõe que a casa assuma os resultados de ser o reflexo dos processos vivenciados pelos seus sujeitos. Pressupõe uma relação entre casas e pessoas, onde a vida das casas, que é constituída pela vida de seus moradores, está diretamente ligada à identidade dessas pessoas e vice-versa. Nas casas e com as casas as relações sociais são percebidas e construídas. Neste sentido, o valor das casas é comunicado não só por sua forma arquitetônica, mas também naquilo que é gerado através de seus rituais e relações sociais. Neste sentido, a casa assume o papel de um “lugar antropológico” quando representa a identidade da família que a habita e é transformada em um espaço repleto de significados de seus sujeitos, ao mesmo tempo em que também os transforma.

Recentemente com a transformação digital superlativada com advento da pandemia global do Covid-19 e, também, suas políticas de isolamento social, é possível afirmar que a casa assume um lugar de prestígio em contextos de uso e consumo, principalmente nas grandes cidades. Isto por que, nas últimas décadas testemunhamos as metrópoles modernas sofreram significativas transformações em seus códigos, símbolos e signos. Suas descontextualizações caracterizam novos ambientes de consumo performático que competem entre si, interseccionam a arquitetura, o design, a moda, o estilo e a comunicação visual; geram um novo e poderoso híbrido de dinâmica de consumo, em que o consumidor ao mesmo tempo em que consome, cria performances que retroalimentam esta dinâmica (Canevacci, 2004). Neste cenário, o novo lugar do design parece ser o de reinserir os valores humanos e da sensibilidade humana no mundo material, para fazer as interações com o produto e ambiente menos impessoais e estritamente funcionais, mais relacionais, agradáveis e confiáveis (Niemeyer, 2008).

O criativo é responsável por incorporar estas transformações sociais e comportamentais em produtos e serviços, materializando a identidade de seu morador na casa residencial. Assim, a casa assume diversas facetas e valores morais, concretiza sonhos, marca rituais de passagem e simboliza noções sociais de conforto, qualidade de vida, status, identidade, segurança, abrigo, conquista, patrimônio e amor, principalmente amor à família.

A casa assume um importante papel transformador e materializador para seus habitantes e suas diferentes fases de história de vida.  Estamos diante não somente da importância do espaço para vida social, mas também da ideia de um espaço produto das organizações sociais, que reflete a identidade e desejo de seus moradores, ao mesmo tempo em que exerce papel de bem posicional e patrimônio, em um mundo de cultura material com regras pré-estabelecidas, mas em constante transformação.

 

Referências Bibliográficas

CANEVACCI, Massimo. Metrópole Comunicacional. Revista USP, n. 63. p. 110-125, Set./Nov. 2004.

 

CARSTEN, Janet; HUGH-JONES, Stephen. About the house. Lévi-Strauss and Beyond. Cambridge: Cambridge University Press, 1995.

 

NIEMEYER, Lucy. Design Atitudinal: uma abordagem projetual. In: MONT´ALVÃO, Claudia e DAMAZIO, Vera (org.). Design, Ergonomia e Emoção. Rio de Janeiro: Mauad X/ FAPERJ, 2008.

 

SEGAUD, Marion. Antropologia do espaço: habitar, fundar, distribuir, transformar. São Paulo: Edições SENAC São Paulo, 2016.

 


Sobre Hugo Costa Gripa:
Designer e Antropólogo
Mestre em Antropologia Social {do Consumo/ Econômica e do Espaço/ a Casa}. Graduado em Desenho Industrial, com pós-graduação em Marketing e MBA em Estratégia Empresarial. Atuo desde 1999, com projetos de design, processos industriais, pesquisa e docência para AMOB, Centro Design Rio, INT, FIRJAN e SENAC. Atualmente, professor visitante na ESPM Rio nos temas Antropologia do Consumo, Pesquisa de Tendências e Design Thinking e no IED Rio, IPOG e Unigran Capital no tema Design.
Instagram: @hgripa