O Design de Interiores nas três memórias humanas



 

por arq. ms. Glaucus Cianciardi

 

O Design de Interiores concebe a configuração espacial para o desenvolvimento das atividades humanas, propiciando conforto físico e psicológico para os seus usuários. quando se trata de espaços residências eles adquirem ainda uma maior importância, pois a casa possuí um significado de proteção e segurança, assim como exterioriza a personalidade de quem nela mora. Esta personificação espacial se processa quando os valores pessoais, os culturais e os chamados inatos ou genéticos, se expressam através dos elementos compositivos utilizados nas composições dos ambientes.

 

O Arquiteto, o Design de interior, assim como o Decorador deve ter em sua consciência projetual o resgate destes valores para que o ambiente projetado venha a ser para o seu cliente um place attachment, e neste intento se faz necessário resgatar as memórias humanas, para que estas possam se materializar na concepção do stimmung, para que este possa a vir a refletir a alma do usuário na sua essência; e como bem coloca Pallasmaa: ‘um lar autêntico têm alma, uma alma que espera seu habitante’. Devemos lembrar que a maior experiência de um profissional na Arquitetura, no Design de Interiores e na Decoração é possibilitar que os elementos físicos utilizados em um projeto se transformem em elementos mentais, que sensibilizam os órgãos sensores de quem utiliza os espaços projetados e se transformam em mensagens a serem decodificadas por quem deles usufruem, daí vem a importância da psicologia ambiental e da neurociência aplicada a arquitetura na compreensão de como se processa esta sensibilização no intento de utiliza-la de forma a melhor suprir as necessidades humanas.

 

Ao escalonarmos as memórias humanas em uma pirâmide, no topo veríamos a primeira faixa relativa as memórias pessoais, que resgatam a historicidade do indivíduo, são de suma importância pois alicerçam as lembranças pessoais e a ancestralidade de sua família, mediam o que existe de mais importante entre a intimidade e a vida pública. A faixa central corresponde as memórias do seu grupo social, que são os valores culturais que devem ser apreendidos, para que depois possam ser transmitidos e perpetuados. Na base da pirâmide vamos encontrar a última faixa onde as nossas memórias primitivas ou inatas se localizam; nesta temos inserida a nossa herança genética, uma lembrança ancestral com a qual todos nós nascemos; esta memória resgata os ensinamentos de vivermos junto ao meio natural, de vivenciarmos a experiência da vida em grupo, assim como termos a percepção do outro e de nós mesmos.

 

A Geobiologia utiliza o termo Biohabitabilidade para designar a salubridade e a sustentabilidade nas interrelações entre nós seres humanos e o espaço natural ou construído no qual vivenciamos as nossas atividades diárias. Para que possamos atender de forma plena estas interrelações, devemos buscar em um projeto de Design de Interiores os quesitos que nos possibilitem propiciar ao usuário a identidade e pertencimento ao espaço projetado através da compreensão destes que estão contidos nas memórias humanas, possibilitando fomentar ainda mais informações para uma melhor interface entre o homem, o espaço e a sua historicidade que pode ser recente ou remeter-se a lembranças longínquas que permeiam o inconsciente coletivo.

 

A memória pessoal lhe resgata enquanto indivíduo, ser único, possuidor de uma trajetória e uma ancestralidade que são somente suas; o pertencimento ao grupo encontra-se implícito na memória social e a memória primitiva resgata ao homem a sua origem primeira que está registrada em seu DNA, propiciando informações genéticas que delineiam parte de seu comportamento e de algumas respostas a determinados estímulos espaciais correntes. A Biohabitabilidade vai muito além das questões que tangem a composição do espaço, o conceito de um projeto deve responder de forma ergonômica, fisiológica e psicológica às demandas das três memórias em busca de uma interface mais holística entre o homem e o seu ambiente, venha este a ser construído ou não; culminando no retorno deste a sua origem mais primitiva, de modo a devolver-lhe a plena compreensão de seu pertencimento ao ciclo natural da vida no resgate de suas memórias genéticas. Àlvaro Siza argumenta: ‘arquitetos não inventam nada, apenas transformam a realidade’, realidade esta, armazenada nas diversas memórias humanas, prontas a serem resgatadas em um projeto de Design de Interiores de modo a dar sentido à vida das pessoas.

 

 

Desenvolver um projeto de design de interiores buscando extravasar a linearidade do Tempo Histórico e recorrendo ao Tempo Mítico, que possuí uma estrutura circular, de repetição cíclica, que retorna às origens e que possuí um embasamento experenciado, pode ser uma oportunidade de conceber um projeto que melhor atenda as novas demandas humanas de habitar. Nesta fase pós pandêmica onde fomos e ainda somos assolados por uma condição extrema de opressão, por receio de contaminação, confinamento compulsório, restrição espacial e insegurança do futuro é muito natural recorrermos ao passado com uma certa nostalgia, talvez na busca da segurança da Ilha Utopia imaginada por Thomas More, como bem coloca Bauman em seu livro

 

Retrotopia; o passado deve ser visto mais do que como consolo utópico nesta Modernidade Líquida a qual vivemos, deve ser um fomento que traz nas várias memórias referências sólidas projetuais que ancorem o indivíduo ao espaço dentro de sua historicidade.
Podemos notar contemporaneamente o mercado da construção civil suscitando pelo resgate das memórias humanas em sua produção, e estas vem sendo inseridas paulatinamente na Arquitetura, no Design de Interiores, assim como no Design de Produto, como podemos observar nas mostras de decoração, nas feiras do setor e principalmente nos editoriais dos blogs, sites e revistas eletrônicas. Talvez de forma inconsciente busca-se resgatar no passado a solidez de algo já vivenciado, conhecido e experienciado, do qual já se conhece o resultado de uso.

 

A memória Pessoal pode ser vista utilizada nos conceitos que tangem a Empatia, que têm as suas bases na teoria de Einfühlung, ganhando cada vez mais expressão nos projetos de Design de Interiores, assim como a preocupação real dos profissionais em buscar melhor ouvir os seus clientes de modo a propiciar-lhes soluções que melhor os atendam, pois como bem coloca Bryan Lawson: ‘não existe um método correto de projetar, nem uma única rota pelo processo deste’, pois os clientes são uníssonos. Bachelard em suas prospecções filosóficas cientificista procurou compreender a casa na memória humana; assim como Heidegger na filosofia existencialista; Norberg-Schulz e Merleau-Ponty na fenomenologia, onde a percepção do espaço se processa de forma individualizada, pois é fruto da psyche humana.

 

O tema da Casa Cor de São Paulo para 2020 (adiada opara 2011) é ‘A casa Original’, foi fruto de uma pesquisa realizada em 2019 em dois grandes eventos europeus, o Salone del Mobile Milano e a Maison Objet; assim como nos bureaus de tendências como a WGSN e ainda confirmada junto a vários trend hunters. A temática teve a sua inspiração justamente nas memórias do Grupo, que abrange a cultura, raízes e ancestralidades deste; esta temática diferentemente dos anos anteriores prevalecia em todas as fontes pesquisadas de forma uníssona; segundo Pedro Ariel Santana diretor de conteúdo da Casa Cor. A inspiração nas memórias do Grupo ainda pode ser sinalizada na coleção Cangaço dos Campanas, com um viés nordestino do Espedito Seleiro, na fabulosa produção do escritório Mula Preta, nos inauditos móveis de Sérgio Matos e ainda no design conceitual nordestino de Rodrigo Ambrósio. Biohabitar um espaço com uma composição que resgata os valores culturais do grupo propicia pertencimento a este, significando que não se está sozinho no mundo.
Na Casa Cor de São Paulo de 2016 um ambiente me chamou muita atenção, era uma sala de banho projetada por Gustavo Neves, havia uma rusticidade primitiva que ao mesmo tempo que me causou perplexidade, me trouxe um pertencimento que não compreendi no momento, me remetia a um passado longínquo o qual não conseguia delimitar cronologicamente.

 

Acompanhando as tendências internacionais, observei que Neves não estava sozinho em sua proposição, que vários projetos resgatavam uma interface entre a alta tecnologia e a materialidade mais primitiva: objetos, mobiliário, ambientes e inclusive na arquitetura, havia uma tendência sendo sinalizada dentro desta prerrogativa projetual. Justamente em um site de arquitetura foi que encontrei a resposta a minha perplexidade, quando vi pela primeira vez uma imagem do interior do museu de arte da ilha de Teshima, na província de Kagawa, no Japão, de Ryue Nishizawa: uma abóbada de concreto com duas grandes aberturas que desvendava a paisagem exterior. Nesta imagem foi que consegui perceber que no inconsciente coletivo estava o homem a resgatar a caverna/abrigo, como que retornando ao ventre da mãe Terra de modo a abrigar-lhe das incertezas da Modernidade Liquida, de lhe reconectar com as suas origens mais primitivas na busca, talvez, da solidez de um passado de valores pré-estabelecidos e já experienciados.

 

Assim pode-se observar as Memórias Primitivas, que se encontram na base da pirâmide, sendo resgatadas e sinalizando a necessidade do homem de reacoplar-se com a natureza, de reinserir-se ao ecossistema, de modo a construir um ‘biohabitat’ pleno. Na contemporaneidade vê-se as Memórias Primitivas sendo sinalizadas fortemente no Design de Interiores, sem que nos demos conta destas, como por exemplo: na tendência Urban Jungle Decor, no amplo uso dos conceitos biofílicos nos projetos corporativos e hospitalares; na valorização da cozinha onde se encontra o fogo ancestral, elemento este responsável no passado por aglutinar as pessoas para a cocção e o aquecimento, assim como a tendência de espaços compartilhados que possibilitam a nossa volta a vida em grupo.
Se para Heidegger habitar é construir, a construção se faz sedimentando camada por camada, partindo do embasamento das memórias Primitivas, depois estabelecendo os valores culturais nas memórias de Grupo e finalizando o projeto com os valores individualizados das memórias Pessoais, onde juntas configuram uma das maiores experiências humanas que é o habitar residencial.

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Instagram – @cianciardi
Sobre Glaucus Cianciardi
Mestre em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2004); possui graduação em Arquitetura – Centros Integrados de Ensino Superior Farias Brito (1985); Pós Graduado em História da Arte – Fundação Armando Alvares Penteado (2000); Pós Graduado em Docência no Cenário para Compreensão – Universidade Cidade de São Paulo (2010). Curso de Neurociência aplicada a ambientes e criação Fundação Armando Alvares Penteado (2019). Atualmente é professor dos cursos de Pós-graduação do Instituto de Pós-Graduação de Goiás nos cursos Master em Arquitetura e Iluminação e Design de Interiores, professor titular do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo nos cursos de Design de Interiores, Design de Produto e Design Gráfico. Lecionou como professor titular na Universidade Cidade de São Paulo nos cursos de Arquitetura e Design de Interiores. Prêmio Augusto Gomes Cardim 2019, Prêmio Augusto Gomes Cardim 2020. Tem experiência na área de Arquitetura, Arquitetura Promocional, Arquitetura Comercial e Design de Interiores, atuando principalmente nos seguintes temas: projeto de arquitetura comercial, promocional e design de interiores. Escritor, palestrante e conferencista internacional.




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